“Vamos ter a 1ª planta do Brasil para produzir Combustível Sustentável de Aviação”, diz pesquisadora do ISI-ER sobre projeto desenvolvido no RN

19/05/2022   16h35

Fabiola Correia apresentou o projeto de produção de combustível sustentável de aviação desenvolvido pelo ISI-ER em parceria com a Cooperação Técnica Alemã, GIZ

 

“Aqui no Instituto SENAI, no Nordeste do Brasil, vamos ter a primeira planta de produção de SAF (Combustível Sustentável de Aviação) do país”. A pesquisadora Fabiola Correia mirou especialistas brasileiros/as e estrangeiros/as na última quarta-feira (18) e sintetizou, com essa frase, os rumos esperados com o trabalho que está coordenando, no Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), em Natal, para chegar a um combustível sintético, capaz de reduzir as emissões de gases do efeito estufa no transporte aéreo brasileiro. 

 

O projeto de produção de Combustível Sustentável de Aviação é executado por meio de parceria entre o SENAI e a Cooperação Técnica Alemã para o desenvolvimento sustentável (na sigla alemã GIZ – Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit), com o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e participação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

 

Detalhes técnicos da iniciativa foram apresentados pela pesquisadora na palestra “Produção de Combustível Sintético de Aviação pela rota Fischer-Tropsch”, no 2º Congresso da Rede Brasileira de Bioquerosene e Hidrocarbonetos Sustentáveis para Aviação (RBQAV). 

 

O evento foi realizado durante três dias, na capital, e encerrado na quarta-feira. Uma apresentação sobre o “o novo momento do hidrogênio”, conduzida pelo diretor regional do SENAI-RN, do ISI-ER e do Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis (CTGAS-ER), Rodrigo Mello, integrou a programação no mesmo dia.

 

Processos químicos, rotas tecnológicas de produção, intercâmbio de conhecimentos entre as instituições envolvidas no projeto do Instituto com a GIZ, além de infraestrutura para o desenvolvimento do novo combustível, foram esmiuçados na palestra de Fabiola.

 

Produzir um querosene sintético renovável, a partir da glicerina, é o objetivo da equipe de pesquisadores/as. A produção, explicou Fabiola, se dará por meio de um processo químico denominado rota Fischer-Tropsch. 

 

A glicerina, que é um co-produto do biodiesel e abundante no Brasil, será transformada em gás de síntese (monóxido de carbono e hidrogênio verde) e, após processos químicos e industriais, será transformada em combustível. “A ideia é obter um produto já certificado para o mercado da aviação”, disse a pesquisadora.

 

Como a produção é sustentável, a expectativa é que o combustível colabore com a redução das emissões de CO2 – um dos principais gases do efeito estufa – e com o alcance de metas ambientais do Brasil.

 

Projeto

O projeto terá duração de dois anos, período em que os pesquisadores também deverão estimar quando o novo combustível poderá chegar ao mercado (Clique aqui para ver mais detalhes no texto “SENAI produzirá combustível sustentável de aviação no RN com apoio da Cooperação Alemã”). 

 

Durante Congresso, pesquisadora do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis esmiuçou etapas do projeto e processos químicos que serão utilizados

 

A iniciativa receberá mais de R$ 4,5 milhões em investimentos até 2023 para obras de adaptação dos reatores e dos equipamentos já existentes na sede do Instituto SENAI, no Rio Grande do Norte, para a produção da solução.

 

“O projeto contempla uma unidade de produção de SAF (o combustível Sintético), que vai nos gerar em torno de 5 litros/dia de QAV (Querosene de Aviação) sustentável”, acrescentou Fabiola na palestra, relembrando que a ideia chegou a ser apresentada três anos atrás, no mesmo Congresso, e que agora está se concretizando. 

 

“Nós vamos chegar nesse produto. Vamos conseguir chegar no SAF para abastecer aviões. E esse é o nosso primeiro passo”, frisou a pesquisadora.

 

Fabiola Correia, que coordena a iniciativa, é graduada em Química, mestre e doutora em Engenharia de Petróleo. 

 

O pesquisador líder do Laboratório de Sustentabilidade do ISI-ER, o engenheiro e doutor em Química, Juan Ruiz, o técnico de laboratório do Instituto na área de automação, manutenção, instrumentação e controle de processos, Ciro Lobo, além de Carlos Padilha, Luanna Paiva e Giovanny Oliveira, pesquisadores/as bolsistas nas áreas de Engenharia Química e Engenharia do Petróleo também integram o projeto.

 

Emissões

Dados do Plano de Ação para a Redução das Emissões de CO2 da Aviação Civil Brasileira, publicado em 2018 pelo Ministério da Infraestrutura, mostram que o consumo de combustível na aviação cresceu, no país, a uma taxa média anual de 2,90% para os voos domésticos e 1,74% para os internacionais, entre os anos 2000 e 2018. 

 

O mesmo documento aponta, a partir de análise da Agência Internacional de Energia (AIE), que as metas mundiais de redução de gases de efeito estufa não serão atingidas sem o aumento expressivo do consumo de biocombustíveis. 

 

O setor de aviação contribui com 2% das emissões globais de CO2 – um dos principais gases causadores do efeito estufa –  segundo a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA). No Brasil, trabalho publicado pela Universidade Federal do Paraná, a partir de informações do MCTI, estima que 1,8% das emissões derivadas dos combustíveis são atribuídas ao setor.

 

Mudanças

“Nós temos que reduzir nossas emissões. Precisamos de mudanças radicais na aviação e no setor energético”,  ressaltou Jürgen Kern, pesquisador e gerente de Projetos do Departamento de Análise de Sistemas de Energia do Centro de Pesquisas Aeroespaciais da Alemanha (DLR), no mesmo painel em que a pesquisadora do ISI-ER apresentou o projeto com a GIZ. 

 

Jürgen Kern, do Centro de Pesquisas Aeroespaciais da Alemanha (DLR), falou sobre a urgência de soluções que reduzam os impactos climáticos da aviação

 

O DLR também investiga e desenvolve tecnologias para alcançar um patamar de aviação sem impactos climáticos, com 0% de emissões. Aeronaves com células de combustíveis e aviões elétricos estão entre elas.

 

O especialista defende os combustíveis sustentáveis como “excelentes opções”, mas não como soluções únicas. “É preciso pensar também em outras alternativas, em outras tecnologias, para oferecer soluções para o futuro”, disse.

 

Na visão dele, não há mais tempo a perder nesse campo. “A jornada é longa, e é preciso começar a caminhar, com estratégias claras para que os investimentos aconteçam. 

 

Tina Ziegler, diretora do projeto Combustíveis Alternativos sem Impactos Climáticos (ProQR), da GIZ, no Brasil, e mediadora da Mesa Redonda em que o tema foi discutido no Congresso, também destacou a importância de mudanças rápidas e perguntou: “o que precisa no Brasil para ter aviação limpa de forma segura e prática?”.

 

Palestra de Fabiola Correia, do Instituto SENAI, foi apresentada durante a Mesa Redonda “Combustíveis Aeronáuticos Sintéticos”, do 2º Congresso RBQAV, em Natal

 

Para Kerne, o país deve investir em diferentes soluções e agir. “Não temos tempo para apenas fazer planos. Nós temos que adaptar os planos enquanto caminhamos”, frisou ele. 

 

O consultor alemão na área de biocombustíveis, Dietmar Posselt, também participou do painel e afirmou que o Brasil tem boas bases para começar.

 

Tina fez coro. “O Brasil já se posicionou internacionalmente como pioneiro na área de biocombustíveis e agora tem tudo para fazer isso acontecer também nessa nova frente: tem academia capacitada, a indústria pronta e demanda”.

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